Unicef: 30 milhões de crianças no Brasil expostas a riscos climáticos

Cerca de 30 milhões de crianças no Brasil estão expostas a riscos climáticos, segundo o Unicef. Desses, 16 milhões convivem com três ou mais riscos simultaneamente.
O alerta vem acompanhado de uma previsão concreta: boletim divulgado em 1º de setembro por órgãos oficiais aponta mais de 90% de probabilidade de o El Niño atingir intensidade muito forte no trimestre setembro-outubro-novembro.
O que já aconteceu serve de medida
O Unicef usa eventos recentes para mostrar como o extremo climático interrompe direitos concretos.
Em 2024, as enchentes no Rio Grande do Sul afetaram a educação de 741 mil estudantes, enquanto a seca extrema na Amazônia atingiu outros 436 mil. No total, 1,17 milhão de crianças e adolescentes tiveram as aulas interrompidas.
São números que traduzem o fenômeno meteorológico em perda de dias de escola — algo que não se recupera depois.
O que o El Niño é, e por que piora
O El Niño é parte de um ciclo natural nas temperaturas do Oceano Pacífico equatorial, marcado por águas mais quentes que influenciam os padrões de chuva e temperatura em diferentes partes do planeta. Ocorre, em média, a cada dois a sete anos.
O que mudou é a intensidade das consequências. Com as mudanças climáticas e a degradação ambiental causadas pela ação humana, os impactos do fenômeno têm se agravado a cada novo ciclo — e dependem também das vulnerabilidades já existentes e da capacidade dos serviços públicos de se preparar.
Para o período atual, há tendência de chuva abaixo da média em grande parte do Norte e Nordeste e acima da média especialmente no Sul, além de temperaturas acima da média em praticamente todo o país. Calor e estiagem também podem prolongar as condições favoráveis a queimadas no Centro e no Norte.
Por que a criança é atingida primeiro
Danilo Moura, especialista em Clima e Meio Ambiente do Unicef no Brasil, explica a diferença entre o dado meteorológico e o efeito na vida real.
O boletim mostra onde pode chover mais ou menos e onde o calor ou a seca se intensificam, diz ele; o papel da organização é olhar o que acontece quando esse extremo chega a uma criança. "Uma seca pode significar falta de água segura, fumaça, dificuldade para chegar à escola ou ao posto de saúde", afirma.
"Uma enchente pode significar escola fechada, vacinação interrompida ou perda da renda da família. E muitos desses impactos podem ser reduzidos se a preparação acontecer antes da emergência."
Há ainda uma vulnerabilidade biológica. Por estarem em desenvolvimento, crianças são particularmente sensíveis ao calor extremo, à desidratação, à fumaça, à má nutrição e a doenças favorecidas por mudanças de temperatura e de chuva. E dependem de adultos e de serviços públicos para ter água, alimentação, escola, saúde e proteção.
Preparar para além deste ciclo
A recomendação do Unicef vai além da emergência imediata.
"Preparar o Brasil, portanto, não significa apenas atravessar o ciclo de 2026–2027, mas construir uma rede de proteção capaz de responder aos próximos El Niños e a outros eventos extremos, com crianças, famílias e serviços essenciais mais protegidos do que no passado", afirma a organização.
Leia também
Brasil
MEC divulga avaliação de 92 obras didáticas voltadas a professores
Brasil
PF apreende escavadeiras em operação contra garimpo ilegal no Pará
Brasil
Serra dos Pireneus vira mosaico de áreas protegidas em Goiás
Brasil