Por que as pesquisas erraram o tamanho do voto em Flávio Bolsonaro

Com todas as seções apuradas, o senador Flávio Bolsonaro (PL) terminou o primeiro turno com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A diferença de 1,87 ponto percentual é a menor entre os dois primeiros colocados em um primeiro turno desde a redemocratização — e ficou fora do que a maioria dos institutos de pesquisa havia medido.
As pesquisas nacionais divulgadas na véspera captaram uma eleição apertada, mas, em graus diferentes, subestimaram o tamanho do voto no candidato do PL. O Datafolha apontava 42% para ele e 45% para Lula: errou por 5,03 pontos o resultado do senador, mais que o dobro da própria margem de erro, de 2 pontos, e por apenas 0,16 ponto a votação do petista.
A CNT/MDA, que dava 47,8% a Lula e 42,1% a Flávio, foi a que mais se distanciou no conjunto, com erro de 4,93 pontos sobre o senador. O PoderData, com 45% a 43%, também subestimou o candidato do PL em mais de 4 pontos. A AtlasIntel, que trabalhava com a menor margem entre os institutos, de 1 ponto, estimou 47% para Lula e 44,1% para Flávio e errou os dois para fora dela.
A Quaest, que ouviu 3.702 eleitores nos dias 2 e 3 de outubro, apontou empate técnico, com 46% para o presidente e 45% para o senador — número que ficou praticamente no limite da margem. Outros institutos já mostravam o senador à frente: a Futura estimava 44,8% a 42,6%, e a Palver, 47% a 43%.
A reação política veio rápido. Um dia depois de se tornar o deputado federal mais votado da história, Nikolas Ferreira (PL-MG) contestou o Datafolha, que dois dias antes do pleito indicava sete pontos de vantagem para Lula em Minas Gerais, onde Flávio terminou cinco pontos à frente. "Prometi e lutarei para isso: faremos a CPI dos institutos de pesquisa ano que vem", escreveu o deputado na rede social X.
A discussão não é nova. Em 2018, Datafolha e Ibope da véspera mostravam Jair Bolsonaro com 40% e 41% dos votos válidos, e ele teve 46,03%. Em 2022, o Datafolha dava Lula com 50% e Bolsonaro com 36%, e as urnas registraram 48,43% e 43,20% — 7,2 pontos a mais para o ex-presidente do que o instituto indicava. Depois daquela eleição, institutos como a Quaest disseram ter ajustado seus métodos para captar melhor o voto conservador.
Para o estatístico Raphael Nishimura, pesquisador da Universidade de Michigan, o resultado não permite concluir que os institutos simplesmente falharam. Ele lembra que as pesquisas não têm por objetivo prever com exatidão a votação. "As pesquisas são retratos do momento", diz. Uma das limitações é o tempo de coleta: mesmo um levantamento divulgado na véspera pode ter começado a ouvir eleitores vários dias antes, quando parte deles ainda não havia decidido o voto.
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