Mostra no Rio reúne quase sete décadas de cinema de Ruy Guerra

Uma mostra na Caixa Cultural do Rio de Janeiro reúne quase sete décadas de produção do cineasta Ruy Guerra, de *Os Cafajestes* (1962), seu primeiro longa-metragem, a *A Fúria* (2024), sua obra mais recente. A entrada é gratuita.
*A Fúria* encerra a chamada Trilogia dos Fuzis, iniciada com *Os Fuzis* (1964) e continuada por *A Queda* (1978). As três obras, realizadas ao longo de seis décadas, são ligadas por um único personagem.
"São três filmes sobre um personagem, o Mário, que é um cara de uma retidão muito grande e por isso é muito abalado na vida", disse o curador e cineasta Aristeu Araújo em entrevista à Agência Brasil.
Um filme quase perdido, agora em 4K
O destaque da programação é *Ternos Caçadores* (1969), produção francesa que durante décadas esteve praticamente inacessível ao público brasileiro — uma das obras menos vistas da filmografia do diretor.
"Durante o processo do projeto a gente descobriu que o filme foi produzido na França na década de 1960 e dirigido pelo Ruy. Estava praticamente perdido e não era exibido há muito tempo, mas tinha sido restaurado em 4K", contou Araújo. Segundo ele, existia no Brasil apenas uma cópia em película muito deteriorada, que mal podia ser assistida — razão pela qual o filme saíra de circulação.
"O filme teve uma carreira boa, pelo que o Ruy fala, no lançamento na França, e na Espanha também foi bem, mas aqui no Brasil foi pouquíssimo exibido", acrescentou o curador.
Caso oposto é o de *Kuarup*, que concorreu à Palma de Ouro em Cannes e hoje enfrenta falta de cópias em boas condições: não há nenhuma versão digital minimamente exibível. No Rio, o filme será apresentado em película, a partir de cópia guardada no Arquivo Nacional.
O problema que a mostra escancara
A intenção da curadoria era reunir todos os filmes de Ruy Guerra que pudessem ser exibidos. O obstáculo foi técnico, e revela uma questão maior do cinema brasileiro.
Segundo Araújo, boa parte da filmografia do diretor tem materiais deteriorados pelo tempo, pela má conservação ou pelo acesso difícil. Grande parte das obras está em película e, quando não há possibilidade de exibir nesse formato, é preciso buscar arquivos digitais — que nem sempre prestam.
"Um grande problema é como essas cópias foram passadas para o digital", explicou. "Às vezes não foram bem telecinadas, são cópias muito antigas com resolução baixa." A telecinagem é o processo de transposição da película para o arquivo digital.
Para o curador, a gratuidade amplia o alcance do trabalho: "É uma espécie de democratização da cultura do cinema brasileiro fazer este tipo de movimento, por isso a gente insistiu em fazer tudo gratuito".
Completam a programação dois documentários: *O Homem que Matou John Wayne* (2015), de Bruno Laet e Diogo Oliveira, em que Ruy Guerra tem um encontro inesperado com o ator norte-americano em uma viagem poética por suas ideias, e *Tempo Ruy* (2021), de Adilson Mendes, sobre o trabalho do cineasta, escritor, ator e dramaturgo.
De Moçambique ao Cinema Novo
Aos 95 anos, Ruy Guerra ofereceu ao público da mostra uma masterclass dedicada à construção artística e política da Trilogia dos Fuzis.
Ele nasceu em Moçambique, enquanto o país africano atravessava o domínio colonial português. Saiu de lá durante o surgimento da *nouvelle vague* para estudar cinema em Paris e chegou ao Brasil em 1958. Em poucos anos tornou-se um dos principais nomes do Cinema Novo, ao lado de Glauber Rocha (1939-1981) e Cacá Diegues (1940-2025).
O olhar político, o diálogo constante com outras linguagens artísticas e a experimentação estética marcam sua obra. Araújo descreve a produção como diversa, sem tema único, mas com um fio condutor: "Ele é um homem de esquerda e muito revoltado com a opressão. Isso é um ponto em comum, e grande parte dos filmes dele traz as pessoas que são oprimidas e estão revoltadas com um certo *status quo*".
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