Investir melhor em saúde pode evitar 739 mil mortes no Brasil

Direcionar melhor o dinheiro da saúde poderia evitar 739 mil mortes no Brasil, segundo estudo do McKinsey Health Institute. A conclusão central não é que falta dinheiro — é que o resultado depende de para onde ele vai.
"Não basta o aumento das cifras", resume Brad Herbig, diretor de dados de Saúde do instituto. Segundo ele, é preciso destinar os recursos a ações comprovadamente eficazes e custo-efetivas, ou seja, aquelas cujo investimento entrega o melhor resultado pelo menor custo necessário.
Como o número foi calculado
Para chegar à estimativa, o instituto analisou cerca de 300 intervenções de saúde baseadas em evidências científicas e já comprovadas como custo-efetivas.
Essas medidas atacam 90 doenças e 27 fatores de risco, que correspondem a 85% dos problemas de saúde que mais atingem a população mundial. O conjunto abrange prevenção em nível populacional, prevenção individual e tratamentos.
Na prevenção populacional entram ações como a taxação extra de itens prejudiciais — cigarro e álcool —, para desestimular o consumo, e a proteção de trabalhadores contra a exposição a poluentes nas fábricas.
Na prevenção individual, medidas como vacinação com altas coberturas e realização de exames preventivos em pelo menos 75% do público-alvo.
Entre os tratamentos, foram considerados desde a realização de cirurgias no prazo adequado até a incorporação progressiva de medicamentos mais avançados.
O argumento econômico
A tese que atravessa o relatório é a de que saúde não deve ser contabilizada como despesa.
"Os investimentos na saúde das pessoas não são gastos, eles também são bons para o crescimento do país, para a melhora da competitividade econômica e afetam muitos outros aspectos", afirmou Herbig.
O raciocínio é direto: pessoa doente não trabalha, consome mais serviço público caro e, no limite, morre em idade produtiva. Uma morte evitada aos 50 anos não é apenas uma vida salva — são anos de trabalho, de renda e de contribuição que permanecem na economia.
É também por isso que a ênfase recai sobre prevenção. Tratar um infarto custa muito mais do que controlar a pressão por anos; tratar um câncer avançado custa muito mais do que o exame que o encontraria cedo.
O que trava a aplicação
O desafio apontado pelo instituto é menos técnico que político.
"É crucial olhar para as evidências científicas e garantir que elas ocupem lugar central nos espaços onde as decisões são tomadas. E também usar essas evidências para comunicar quais ações são necessárias", completou Herbig.
A observação reconhece um problema real da gestão pública de saúde: decisões de orçamento costumam responder a pressões imediatas — fila de hospital, obra inaugurável, crise de abastecimento — enquanto as medidas de maior retorno são justamente as que só mostram efeito anos depois e não rendem evento de entrega.
O estudo foi apresentado durante um encontro de jornalistas da América Latina promovido pela farmacêutica Roche, em San José, na Costa Rica, cujo tema central foi saúde como investimento.
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