Cultura

Instalação no Sesc Pompeia reconstrói o porão de um navio negreiro

Obra da artista portuguesa Grada Kilomba usa 134 blocos de madeira queimada em 220 m². Mais de 4,8 milhões de africanos escravizados chegaram ao Brasil.
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Redação Bastidor Brasil
Publicado em 1 de outubro de 2026 às 08:49 · 2 min de leitura
Instalação no Sesc Pompeia reconstrói o porão de um navio negreiro
Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil

Uma instalação em cartaz no Sesc Pompeia, em São Paulo, reconstrói a arquitetura do porão de um navio negreiro. A obra O Barco, da artista portuguesa Grada Kilomba, é formada por 134 blocos de madeira queimada, dispostos em 220 metros quadrados, com 32 metros de comprimento.

A pergunta que a obra faz

A artista propõe uma provocação ao público: o que o fundo do oceano diria se fosse esvaziado de água hoje?

“Se esvaziássemos a água, o oceano e a terra em si iriam revelar uma série de trilhões de passagens de corpos humanos, não só no passado, mas no presente, em uma repetição da violência cíclica”

A peça desenha a silhueta do fundo de uma grande embarcação, revelando o espaço criado nos porões para acomodar os corpos.

O contraponto aos monumentos

Kilomba diz que a obra responde diretamente às estátuas de barcos espalhadas pela Europa e pela América Latina.

“O Barco vem mostrar aquilo que estava no fundo de muitos barcos que aparecem nos monumentos da Europa e da América Latina e que glorificam uma história, que contam a história com glória, como um descobrimento, como uma expansão e como algo romântico e glorioso”

O número por trás

Durante cerca de 400 anos, milhões de africanos foram sequestrados e vendidos como mercadoria em colônias de nações europeias — crime que continuou mesmo após a independência de algumas delas.

O Brasil foi o principal destino: mais de 4,8 milhões de pessoas escravizadas atravessaram o Atlântico para o trabalho forçado aqui.

A origem da pesquisa

A obra resulta de pesquisa da artista em botânica, história e travessias transatlânticas, e dialoga com a tragédia grega de Antígona — em que um irmão é enterrado com honras e o outro é deixado insepulto.

“Esta obra também vem em sequência dessa obra Antígona, que questiona quem é que pode ser enterrado e quem não, quem é que pode ser lembrado e tem um lugar para ser chorado e para ser celebrado e quem não”
Fontes consultadas
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