Financial Times diz que volta dos Bolsonaro expõe fraqueza de Lula

O Financial Times, jornal britânico considerado o mais influente do mundo na área econômica, publicou um editorial sobre o que descreve como a iminência de um retorno da família Bolsonaro ao poder em Brasília, no rastro da repercussão internacional do primeiro turno das eleições brasileiras.
O texto parte de uma comparação entre dois países. O jornal elogia o Brasil pela condenação de Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado — "por sua disposição em defender a democracia e se proteger dos aspectos mais perigosos do populismo de extrema-direita" — e aponta como falha dos Estados Unidos o fato de Donald Trump não ter sido punido pela tentativa de reverter o resultado da eleição de 2020, que perdeu para Joe Biden.
"No entanto, assim como Trump desafiou as probabilidades para conquistar um segundo mandato como presidente dos EUA, a família Bolsonaro tem grandes chances de protagonizar seu próprio retorno notável", diz o editorial. Para o jornal, se isso se confirmar, o caso brasileiro "coroaria uma trajetória notável de candidatos alinhados a Trump na América Latina".
A região passou por uma guinada à direita nos últimos anos, com a eleição de Javier Milei na Argentina, Daniel Noboa no Equador, Santiago Peña no Paraguai, José Antonio Kast no Chile, Rodrigo Paz na Bolívia e, mais recentemente, Abelardo de la Espriella na Colômbia. Nayib Bukele, em El Salvador, também se tornou um dos principais nomes da direita latino-americana e aliado de Trump.
No primeiro turno de domingo, o senador Flávio Bolsonaro (PL) superou Lula com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% do presidente. "Se eleito, Flávio Bolsonaro corre o risco de desencadear uma nova crise institucional caso leve adiante sua promessa de libertar o pai da prisão sem o apoio decisivo do Congresso", avalia o jornal.
Na leitura do Financial Times, o fôlego recuperado pelos Bolsonaro depois da derrota de 2022 não vem das realizações de Flávio, e sim das falhas de Lula. A primeira apontada é a segurança pública: "Lula tem enfrentado dificuldades para convencer os eleitores de que possui uma resposta eficaz para a ascensão das facções do narcotráfico; muitos setores da esquerda passam a impressão de não considerar essa questão uma prioridade".
A segunda é a economia. Apesar de indicadores de destaque com bom desempenho, incluindo desemprego em níveis historicamente baixos, o editorial afirma que "uma política fiscal frouxa contribuiu para taxas de juros elevadíssimas, que penalizam os 82% das famílias brasileiras que possuem dívidas pessoais".
O texto cita ainda o escândalo que envolveu ministros do Supremo Tribunal Federal e o banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, preso por suspeita de fraudar mais de R$ 12 bilhões do sistema financeiro. "Lula não teve ligação direta com o escândalo — ao contrário de Flávio, que solicitou financiamento ao banqueiro para um filme sobre seu pai —, mas a forte rejeição pública diante da percepção de corrupção nas elites o prejudicou consideravelmente", conclui o editorial.
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