Estudo acha 568 anúncios eleitorais irregulares na Meta no dia do voto

Levantamento do Observatório das Big Techs, do NetLab da Universidade Federal do Rio de Janeiro, identificou anúncios eleitorais irregulares na Meta, no Kwai e no Google no dia da votação, além de recomendações indevidas de vídeos de candidatos pelo TikTok e pelo YouTube.
Pelas regras do Tribunal Superior Eleitoral, a circulação paga ou impulsionada de propaganda eleitoral na internet é proibida desde 48 horas antes até 24 horas depois da eleição. A norma também determina que plataformas com sistemas de recomendação excluam desses mecanismos os canais e perfis de candidatos informados à Justiça Eleitoral.
568 anúncios na Meta — e seis que fingiam ser o TSE
O monitoramento encontrou 568 anúncios veiculados de forma irregular nas plataformas da Meta — Instagram, Facebook, WhatsApp, Messenger e Audience Network — durante o período analisado.
Seis dessas peças são o caso mais grave. Elas simulavam comunicações do próprio TSE, usando nomes e elementos visuais associados à Justiça Eleitoral, e divulgavam uma suposta possibilidade de votar remotamente, pelo celular ou de casa. Isso não existe.
Os anúncios apresentavam o falso voto digital como modalidade oficial e mencionavam situações como problemas de saúde, dificuldade de locomoção e fortes chuvas para estimular o uso do serviço. Em alguns casos, o usuário era direcionado a sites que pediam o CPF para iniciar a suposta votação — estrutura que, além de desinformar sobre o processo eleitoral, coleta dado pessoal sob pretexto falso.
Kwai, Google e os sistemas de recomendação
No Kwai, o NetLab identificou 18 anúncios eleitorais ativos no dia da votação e outros quatro classificados como "em pausa" no repositório da plataforma — três deles haviam circulado durante o período de resguardo, entre 1º e 3 de outubro.
O laboratório encontrou ainda 45 anúncios cuja data final de circulação teria sido estendida até o dia da votação, associados a dez páginas de candidaturas: peças que terminariam no dia 3 seguiam registradas como ativas no dia 4. Os pesquisadores ressalvam que não foi possível confirmar integralmente o caso, por divergências entre os dados exportados pelo Kwai e as informações exibidas na própria biblioteca de anúncios.
No Google, o monitoramento localizou um anúncio já identificado em 3 de outubro que permanecia ativo de forma irregular na infraestrutura de publicidade da empresa.
Além da publicidade paga, foram acompanhados os sistemas de recomendação. Entre os dias 3 e 4 de outubro, o TikTok recomendou 18 vídeos de sete candidatos, e o YouTube, 17 vídeos de seis candidatos. No Instagram não foram encontradas recomendações de vídeos publicados por candidatos.
A fiscalização esbarra nos dados das próprias plataformas
O NetLab afirma que limitações impostas pelas big techs dificultam tanto a fiscalização quanto a responsabilização por eventuais irregularidades.
No caso da Meta, o laboratório identificou divergências entre os dados apresentados na interface da Biblioteca de Anúncios e aqueles obtidos pela ferramenta de programação da empresa: havia anúncios classificados como "inativos" na interface que, simultaneamente, apareciam em listagens de anúncios ativos.
O problema é estrutural. A auditoria externa de propaganda eleitoral depende quase inteiramente das bibliotecas de anúncios que as próprias plataformas mantêm — se o repositório diverge de si mesmo, o pesquisador não tem como afirmar com segurança o que circulou e por quanto tempo.
O monitoramento foi feito com buscas manuais e computacionais, a partir de termos relacionados às candidaturas e às eleições, pelas interfaces das bibliotecas de anúncios e via API, ferramenta que dá acesso a uma espécie de banco de dados oficial dessas redes.
Leia também
Tecnologia
Reino Unido cria as primeiras regras para dispositivos médicos com IA
Tecnologia
Nobel de Física vai para quem transformou gelo em detector gigante
Tecnologia
Coreia do Sul investiga ataque a bancos com indícios de uso de IA
Tecnologia