Filmes e Séries

Ailton Krenak estreia como diretor em filme gravado no Cerrado

Único indígena na Academia Brasileira de Letras filmou por um mês na Chapada Imperial, no DF. A trama é narrada por um líder espiritual xavante e estreia em 2027.
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Redação Bastidor Brasil
Publicado em 7 de outubro de 2026 às 14:01 · 3 min de leitura
Ailton Krenak estreia como diretor em filme gravado no Cerrado
Paisagem de cerrado em área de proteção ambiental — Foto: Arthur Bruck/Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

Ailton Krenak vai estrear como diretor de cinema. O escritor, ambientalista e único indígena membro da Academia Brasileira de Letras gravou seu primeiro filme na Chapada Imperial, em Brazlândia, no Distrito Federal. A estreia está prevista para 2027.

As filmagens duraram um mês e reuniram cerca de 50 pessoas em uma área privada de preservação ambiental de 4 mil hectares. O título ainda não foi divulgado.

Um líder espiritual xavante, nos anos 1960

A produção é uma ficção narrada pelo olhar de um líder espiritual do povo xavante, que orienta sua comunidade diante de transformações que ameaçam o território onde vive. A história se passa na década de 1960.

Segundo Krenak, o filme celebra o bioma do Cerrado e conta a história de uma pessoa originária desse território a partir de uma ficção ligada à experiência de vida.

"É uma ficção, mas é uma ficção a partir da experiência de vida de um ser humano que viveu mais de 100 anos dentro do Cerrado. Do Cerrado original, sem estrada, sem lenço, nem documento", disse o diretor.

A escolha do recorte temporal não é casual. Os anos 1960 são exatamente o período em que a ocupação do Planalto Central se acelerou — com a construção de Brasília, a abertura de rodovias e o avanço da fronteira agrícola sobre áreas até então contínuas de Cerrado. Colocar a trama ali é colocar o personagem no momento em que o território começa a mudar sob seus pés.

Por que o Cerrado, e por que ele é pouco filmado

O Cerrado é a segunda maior formação vegetal do Brasil, atrás apenas da Amazônia, e cobre boa parte do Centro-Oeste, além de áreas de Minas Gerais, Bahia, Tocantins, Maranhão e Piauí. É também um dos biomas mais ameaçados do país, justamente por coincidir com a principal região produtora de grãos.

No cinema, costuma aparecer menos que a Amazônia, o sertão nordestino ou os grandes centros urbanos. A paisagem de árvores retorcidas, veredas e chapadas tem identidade visual forte, mas pouca presença na imagem que o país faz de si mesmo — e é esse desequilíbrio que o filme parece querer mexer.

A Chapada Imperial, onde a produção foi rodada, é uma área privada de preservação na região de Brazlândia, no Distrito Federal, conhecida por cachoeiras e formações típicas do bioma.

Quem é Ailton Krenak

Nascido no Vale do Rio Doce, em Minas Gerais, Krenak é uma das vozes públicas mais conhecidas do movimento indígena brasileiro desde os anos 1980, quando participou da mobilização que levou à inclusão dos direitos dos povos indígenas na Constituição de 1988.

Como escritor, ficou conhecido por uma obra curta e de grande circulação, que discute a relação entre sociedade, natureza e as ideias de futuro e de progresso. Em 2024, tornou-se o primeiro indígena a ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras.

A estreia atrás das câmeras amplia esse percurso para outra linguagem — e inverte uma posição histórica: em vez de ser filmado e narrado por terceiros, passa a ser quem decide o enquadramento.

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